Pedaço 2 – A investigação
Uma semana atrás. 23:19 hs.
Não sou muito chegado em lugares escuros. Não que eu tenha medo. Quando vou dormir até mesmo o relógio digital da cabeceira me incomoda. Então, não é o escuro o problema. O grande problema é onde está escuro.
O prédio onde estou já foi um depósito de peças de caminhão. Hoje faz a casa da família Adams parecer um carrossel colorido e luminoso.
Por algum motivo que não vale à pena ficar queimando neurônios para descobrir, o corredor a minha frente parece não ter nenhuma escada que leve ao andar superior. As paredes ao meu lado esquerdo sobem alto, alcançando janelas imundas. As que estão quebradas permitem a entrada do luar. A única fonte de luz que eu possuo. Com mais dois passos à frente eu consigo visualizar o que parece ser uma chave de luz. Eu a levanto. Uma única lâmpada, ao final do corredor, se acende. A luz é muita fraca. Se tiver um urso pardo no fim desse corredor eu só conseguirei vê-lo quando já estiver sentindo o hálito dele. Eu quase prefiro contar com a luz da lua que entra pelos buracos nas janelas altas.
Arma na mão. Repasso mentalmente os meus últimos sete treinos de tiro. Oitenta e sete porcento de acerto. Uma boa média. Mas só isso. Boa. Treze por cento de erros é um número grande demais. Se houver alguém armado no fim do corredor, as chances de eu ser alvejado são de 90 porcento. Uma ótima média, o que é muito ruim para mim.
Procuro caminhar tentando fazer o menor ruído possível. Mas cada passo que dou parece que estou deixando cair uma pilha de pratos no chão. Se houver alguém armado no fim do corredor, ele tem mais de 50 porcento de chance de me acertar se guiando pelo som. Uma excelente média levando-se em conta que eu nem vou ver da onde veio o tiro.
Mais alguns passos e percebo uma porta de aço do meu lado esquerdo. Uma dessas portas de correr. Tento forçar abri-la, mas de modo que não faça barulho. Ou está trancada ou muito bem emperrada. Penso em forçar mais um pouco, mas as chances de fazer um barulho imenso me faz repensar.
Continuo andando. Já estou perto o suficiente da lâmpada para ver o pouco que ela consegue iluminar. A porta de um elevador. Desses antigos, de porta sanfonada e que, muito provavelmente ainda usava correntes no lugar do cabo de aço.
Mais alguns passos. Já consigo ter certeza que não há nada e nem ninguém me esperando no final do corredor. O que não significa que não tenha alguém me esperando dentro do elevador.
Só agora começo a perceber o cheiro desse lugar. Óleo, óleo queimado, borracha queimada e mais algumas coisas que não consigo distinguir.
Estou a um passo da porta do elevador. Um barulho chama a minha atenção. Algo atrás de mim. Viro-me num único movimento. Arma apontada pra frente. Arma apontada para o nada. O corredor por onde eu vim está escuro demais para que eu enxergue qualquer coisa. Começo a sentir o meu colarinho molhado de suor. Não é calor o que estou sentindo. É medo. Nenhum tiro e nenhum barulho. Talvez não seja nada. Talvez um rato.
Volto em direção do elevador novamente. A porta sanfonada está fechada. Felizmente por suas frestas posso ver que não há ninguém dentro dele.
Abro a porta. O elevador é bem grande. Do tipo que carregaria o pneu de um trator se fosse preciso. Não há painel. O elevador é realmente antigo. Há apenas uma alavanca indicando o térreo e o andar superior. Calculo as chances dele ainda estar funcionando e empurro a alavanca para que suba.
Um estalo. Alguns rangidos. O barulho de correntes a muito tempo descansando sendo forçadas a trabalhar. Após o solavanco que me faz lembrar um bang-jump, começo a subir de forma lenta, mas contínua. O último vestígio de luz da lâmpada do corredor desaparece do meu pé. Novamente me encontro imerso na mais completa escuridão. Meus únicos companheiros são os resmungos do velho elevador.
Chego ao andar superior. Penso se devo abrir a porta de forma lenta e silenciosa ou escancará-la logo de uma vez. A primeira opção é a mais sensata.
Abro a porta. Tateio a parede ao lado a procura de algum interruptor ou chave de luz. Está tão escuro que não consigo enxergar minha própria arma. Nada na parede esquerda à saída do elevador. Me resta abrir a porta do elevador por inteiro e tentar do outro lado.
No segundo passo fora do elevador eu esbarro em algo... Da minha altura! Me jogo para trás e disparo a arma três vezes. Algo na parede atrás de mim acerta minhas costas. O fogo do disparo me faz enxergar algo à minha frente. Ele está sorrindo! Como alguém pode levar três tiros e ainda sorrir?
Minhas costas doem. Levo a mão nas costas para ver se me machuquei. Estou encharcado. Mas não é sangue. Suor. Medo.
O que acertou as minhas costas foi a chave de luz. Eu levanto a chave na esperança de ter mais sorte do que no corredor abaixo. Duas lâmpadas se acendem. Sorte. Mas não muita. Uma lâmpada em cada extremo do andar. Lâmpadas maiores e mais fortes que a do corredor, mas insuficientes para iluminar um lugar tão grande. Mas já consigo enxergar algumas coisas. Manequins e bonecos. Ao que parece o andar inteiro está cheio de manequins e bonecos. Os manequins estão todos vestidos de pierrot ou de clows. Todos os bonecos são de palhaços. E todos em tamanho real. Eu acertei três tiros em um deles. Com três balas cravejadas eu seu corpo, uma maquiagem macabra e um sorriso feito de dentes triangulares, ele mantém os olhos fixos em mim. Quase como se estivesse vivo.
Ando com cuidado. Racionalmente eu sei que são bonecos, mas é como se todos estivessem me observado. É como se todos estivessem me olhando e pensando: “Você não vai sair vivo daqui!”
Nenhum dos bonecos ou manequins tem um aspecto comum ou alegre. Todos eles parecem ter saído de algum pesadelo distorcido. Alguns seguram balões vermelhos e me olham como se quisessem me devorar. Outros têm a expressão de quem está chorando, como se quisessem me contar o segredo do porquê estão tristes. Muitos estão escondendo seus olhos, mas mostrando sorrisos de tubarões. E ainda há aqueles que tem algum membro faltando e parecem estar urrando de dor. Todos me observam. “Você não vai sair vivo daqui!”
Estou preste a passar pelo que me parece ser a última leva de integrantes do circo dos horrores quando percebo algo. Como eu disse, a luz não é o suficiente para iluminar todo o ambiente, mas é possível enxergar alguma coisa. Alguém armado. Uso um boneco como escudo. Sua maquiagem, toda borrada, têm tintas verde, vermelha e preta. Seu cabelo é azul e todo espetado. Camisa branca, rosas murchas no lugar dos botões da camisa, suspensório preto, calça vermelha e sapato gigante completam a imagem. Ele olha pra mim. “Você não vai sair vivo daqui!”
Giro por trás do boneco e aponto a arma para o lugar onde vira o sujeito armado.
Largue a arma! FBI!
O sujeito já estava me esperando. Consigo ver quase nitidamente a arma dele apontada para mim. Pelo ângulo da arma dele, percebo que vou ser atingido bem no meio do peito. Não me resta alternativa além de atirar.
Eu atiro e me jogo de lado.
Não houve nenhum grito ou gemido. Apenas o som de vidro se quebrando com o disparo. Será que eu errei tanto assim? Oitenta e sete porcento de acertos nos treinos de tiro. Uma boa média. Mas só isso. Boa. Pelo visto acertei uma janela ou algo assim. Mas existe uma outra coisa estranha... Só eu disparei. Só ouvi um único disparo.
Eu fico de joelhos. Arma apontada para onde eu acho que está o sujeito. Dessa posição não é possível ver nada. Preciso me levantar.
De pé a visão volta a ser melhor. Eu caminho pra frente e encontro o sujeito. Nada de janelas. Eu acertei o sujeito em cheio. Oitenta e sete porcento. Uma boa média!
O sujeito sou eu mesmo. Eu acertei um espelho. Todo o fundo do andar, pelo visto, está forrado de espelhos. Começo a achar que todo esse medo é desnecessário. Me olho no espelho. A luz mal chega até onde estou. Posso ver minha camisa molhada de suor. Posso ver... Um dos palhaços movendo-se no fundo!
O susto faz a racionalidade ir para o espaço. Eu corro em direção de algum ponto mais escuro. Esbarro em 3 ou 4 bonecos que caem no chão. Mesmo do chão eles olham pra mim. “Você não vai sair vivo daqui!” Se eu não posso vê-lo, então ele também não poderá me ver. Prendo a respiração para conseguir ouvir melhor. Sapatos de palhaço são grandes. Impossível andar com aquilo sem fazer barulho. Ou não?
Chego ao meu limite prendendo a respiração. Solto o ar, mas devagar, tentando não fazer barulho. Eu escuto minha respiração. E se eu escuto, talvez o palhaço também escute. Sei que isso soa bem paranóico, mas devido a atual situação, não há como não ser paranóico.
Sou pego de surpresa pelo flash de uma máquina. Não, não é um flash. Se faltava alguma coisa para completar esse pesadelo, deste instante em diante não falta mais. Começa a chover violentamente do lado de fora. Nem mesmo as sujas janelas do local impedem a claridade dos relâmpagos de invadirem o ambiente. Mas devido a fúria da chuva, a energia elétrica desaparece. Agora só posso contar com a luz dos relâmpagos. A pouco eu ainda podia ver a lua! De onde surgiu essa chuva? Cada gota que cai no velho telhado metálico parece uma marretada. Sem enxergar nada e ser ouvir nada. É ou não um pesadelo perfeito?
À luz dos relâmpagos, o que mais se sobressai são os olhos e sorrisos dos bonecos. Sorrisos que mais parecem navalhas prontas para me retalhar. E olhos que parecem selar meu destino. “Você não vai sair vivo daqui!”
Eu ando à medida que os relâmpagos iluminam o lugar o suficiente para que eu não esbarre ou tropece em nada. Sinto meu corpo encharcado. Respiro fundo a fim de evitar que as mãos tremam. Não está funcionando muito. Oitenta e sete porcento de acerto nos treinos de tiro... Mas com as mãos firmes.
Começo a procurar um padrão no intervalo entre os relâmpagos. Sou bom com números. Isso tem que valer de alguma coisa numa missão de campo. Não consigo achar nada. Se não fosse o fato de queda de relâmpagos ser algo absurdamente caótico, estou nervoso demais para conseguir calcular qualquer coisa.
Não posso me esquecer que os relâmpagos também me iluminam. Eu preciso ter cuidado...
Um relâmpago 1 segundo mais demorado que os outros rasga o céu. Ele está do meu lado esquerdo. Não consigo ver seu rosto. Uma máscara. Não! Óculos de visão noturna! Todo tempo ele esteve me vendo! Eu escuto um disparo. E dessa vez não foi eu quem disparou. Sou jogado no chão. Pareço um homem morto no chão. Pareço!
Quando o palhaço aproxima-se de mim para conferir se estou morto, agarro suas pernas forçando sua queda. Com a queda ele deixa a arma cair.
Eu ainda estou armado, mas não posso vê-lo. Ele não está mais armado, mas pode me ver claramente.
Agarro sua roupa de palhaço. Mesmo sem poder vê-lo, estando agarrado à sua roupa, não tenho como errar o disparo.
Se mexer um único dedo você morre desgraçado! – eu grito para ele, com esperança que ele fique com mais medo do que eu estou.
Sinto um murro me acertar. Algo como se ele tivesse girado o corpo com toda força possível. Não solto a roupa. Ela se rasga. Ele se livra de mim e com a ajuda dos relâmpagos foge em direção do elevador, derrubando todos os manequins a sua frente.
Percebo que estou sem respirar. Abro a boca e puxo o ar com força. O pulmão chega a doer. Mas não mais que meu ombro. Consigo sentir a bala alojada nele.
Ligo meu rádio, que permanecera desligado o tempo todo para evitar que qualquer ruído denunciasse minha presença. Me identifico e chamo por socorro médico.
5 dias atrás. 14:27 hs.
Meu ombro ainda dói bastante. Mesmo com a ajuda de uma tipóia. O médico disse que eu tive sorte, pois a bala não estilhaçou quando atingiu o meu ombro. E no momento, essa é a menor das minhas preocupações.
Estou afundado num sofá, na ante-sala do chefão do Bureau. Dentro de 3 minutos eu tenho uma reunião com ele para explicar tudo o que aconteceu. Não vai ser nada fácil.
Como explicar que um agente da equipe de análise, que nunca realizara uma única missão de campo na vida, simplesmente decidiu correr atrás de uma pista só porque a equipe que investiga o caso decidiu ignorar suas deduções?
Com certeza ele vai me dizer que todas as opções têm que ser descartadas e que no momento certo a minha linha de raciocínio seria analisada e investigada. Que o fato de eu ter ajudado a esclarecer outros crimes de grande repercussão, isso não faz de minhas análises a prioridade número 1 do FBI.
Eu vou contra-argumentar falando do fator tempo. Vou dizer que evitar o desperdício de tempo evitaria mortes desnecessárias. Só que o chefe não é conhecido apenas pela sua competência como agente durante décadas; é conhecido também por ter resposta para tudo! Mas não consigo imaginar o que ele poderia me dizer para rebater a questão do tempo. O fato de eu não imaginar não significa que não vou descobrir. E com certeza será dolorido para meu ego.
A secretária me manda entrar.
Sabe quando você perde um parente e por estar organizando tudo para o enterro acaba chegando tarde no velório? Então, quando você chega as pessoas olham para você com aquela cara de “coitado dele”? É assim que a secretária me olha quando me dirijo à porta.
Dou duas batidinhas na porta, peço licença, escuto a voz do chefe me mandando entrar e entro.
Ela está sem seu computador. Digita alguma coisa. Provavelmente algum e-mail.
Comece a falar Christensen. – me disse o chefe sem nem se dar ao trabalho de me olhar.
Não há muito o que dizer chefe – comecei a dizer – Depois de uma análise detalhada do caso eu observei fortes evidências do provável paradeiro do assassino. Os agentes Monroe e Willigham decidiram ir atrás de outra evidência apesar de toda minha insistência...
Christensen, todas as opções, numa investigação têm que ser descartadas. Quando chegasse o momento, a linha que você apontava seria investigada. Todos aqui sabemos o quanto você é brilhante e o quanto já nos ajudou desde que passou a fazer parte da equipe de análises.
Bingo!
Mas o tempo era fundamental senhor! Eu pensava apenas em evitar mais mortes!
O chefe para de digitar e vira-se para mim. Algo me diz que eu deveria primeiro ter concordado com o que ele disse para depois tentar contra-argumentar qualquer coisa. Mas agora é tarde demais.
Se tivesse morrido você teria atingido o seu objetivo agente Christensen?
Não sei admiro ou odeio ele. A reputação o precede!
Não senhor. – eu respondo.
Ir até aquele local sozinho foi uma das maiores burrices que vi em toda a minha carreira agente Christensen... – me disse o chefe.
Fato!
Até consigo entender sua linha de raciocínio. Se falasse para alguém o que estava planejando fazer, se tentasse levar algum reforço com você para invadir o local, é certo que não conseguiria ajuda e talvez até impedissem você de ir... – ele continuou.
Ele é bom mesmo!
Você analisou suas probabilidades de sucesso antes de entrar naquele lugar agente Christensen? – me perguntou o chefe.
Está usando contra mim meu modo de agir! Achei que só eu conseguia fazer isso com os outros!
Na verdade sim... – comecei a dizer – Cheguei a 3,47% de chances de sucesso.
Uma péssima porcentagem, não concorda comigo agente Christensen? – observou o chefe.
Sim senhor. – eu respondi.
E mesmo tendo consciência de sua baixíssima probabilidade de sucesso você entrou. Se você estivesse na sua mesa e essas informações todas chegassem até você, como classificaria o agente que teve tal atitude? – me perguntou o chefe.
Ele quer que eu me autoflagele! Estamos entrando no campo da crueldade!
Informalmente chamaria o agente de imbecil irresponsável senhor. – eu respondi.
Definição perfeita agente Christensen – concordou o chefe comigo pela primeira vez.
O chefe começa a me olhar. Deve estar pensando o que fazer com um agente como eu. Se existir alguma espécie de posto avançado no Tibet ou Djibuti, provavelmente serei transferido para lá. Ainda existe a opção de me promover a sub-auxiliar de ajudante de catador de clipes usados. E para vergonha geral, posso ser expulso do FBI. Ser mandado para o Tibet não é tão ruim quando vemos as opções que restam.
Você sabe que não me resta muitas alternativas do que fazer com você não é mesmo agente Christensen? – me pergunta o chefe com uma expressão indecifrável.
Leite de iaque deve ter um gosto horrível!
Uma semana atrás. 23:19 hs.
Não sou muito chegado em lugares escuros. Não que eu tenha medo. Quando vou dormir até mesmo o relógio digital da cabeceira me incomoda. Então, não é o escuro o problema. O grande problema é onde está escuro.
O prédio onde estou já foi um depósito de peças de caminhão. Hoje faz a casa da família Adams parecer um carrossel colorido e luminoso.
Por algum motivo que não vale à pena ficar queimando neurônios para descobrir, o corredor a minha frente parece não ter nenhuma escada que leve ao andar superior. As paredes ao meu lado esquerdo sobem alto, alcançando janelas imundas. As que estão quebradas permitem a entrada do luar. A única fonte de luz que eu possuo. Com mais dois passos à frente eu consigo visualizar o que parece ser uma chave de luz. Eu a levanto. Uma única lâmpada, ao final do corredor, se acende. A luz é muita fraca. Se tiver um urso pardo no fim desse corredor eu só conseguirei vê-lo quando já estiver sentindo o hálito dele. Eu quase prefiro contar com a luz da lua que entra pelos buracos nas janelas altas.
Arma na mão. Repasso mentalmente os meus últimos sete treinos de tiro. Oitenta e sete porcento de acerto. Uma boa média. Mas só isso. Boa. Treze por cento de erros é um número grande demais. Se houver alguém armado no fim do corredor, as chances de eu ser alvejado são de 90 porcento. Uma ótima média, o que é muito ruim para mim.
Procuro caminhar tentando fazer o menor ruído possível. Mas cada passo que dou parece que estou deixando cair uma pilha de pratos no chão. Se houver alguém armado no fim do corredor, ele tem mais de 50 porcento de chance de me acertar se guiando pelo som. Uma excelente média levando-se em conta que eu nem vou ver da onde veio o tiro.
Mais alguns passos e percebo uma porta de aço do meu lado esquerdo. Uma dessas portas de correr. Tento forçar abri-la, mas de modo que não faça barulho. Ou está trancada ou muito bem emperrada. Penso em forçar mais um pouco, mas as chances de fazer um barulho imenso me faz repensar.
Continuo andando. Já estou perto o suficiente da lâmpada para ver o pouco que ela consegue iluminar. A porta de um elevador. Desses antigos, de porta sanfonada e que, muito provavelmente ainda usava correntes no lugar do cabo de aço.
Mais alguns passos. Já consigo ter certeza que não há nada e nem ninguém me esperando no final do corredor. O que não significa que não tenha alguém me esperando dentro do elevador.
Só agora começo a perceber o cheiro desse lugar. Óleo, óleo queimado, borracha queimada e mais algumas coisas que não consigo distinguir.
Estou a um passo da porta do elevador. Um barulho chama a minha atenção. Algo atrás de mim. Viro-me num único movimento. Arma apontada pra frente. Arma apontada para o nada. O corredor por onde eu vim está escuro demais para que eu enxergue qualquer coisa. Começo a sentir o meu colarinho molhado de suor. Não é calor o que estou sentindo. É medo. Nenhum tiro e nenhum barulho. Talvez não seja nada. Talvez um rato.
Volto em direção do elevador novamente. A porta sanfonada está fechada. Felizmente por suas frestas posso ver que não há ninguém dentro dele.
Abro a porta. O elevador é bem grande. Do tipo que carregaria o pneu de um trator se fosse preciso. Não há painel. O elevador é realmente antigo. Há apenas uma alavanca indicando o térreo e o andar superior. Calculo as chances dele ainda estar funcionando e empurro a alavanca para que suba.
Um estalo. Alguns rangidos. O barulho de correntes a muito tempo descansando sendo forçadas a trabalhar. Após o solavanco que me faz lembrar um bang-jump, começo a subir de forma lenta, mas contínua. O último vestígio de luz da lâmpada do corredor desaparece do meu pé. Novamente me encontro imerso na mais completa escuridão. Meus únicos companheiros são os resmungos do velho elevador.
Chego ao andar superior. Penso se devo abrir a porta de forma lenta e silenciosa ou escancará-la logo de uma vez. A primeira opção é a mais sensata.
Abro a porta. Tateio a parede ao lado a procura de algum interruptor ou chave de luz. Está tão escuro que não consigo enxergar minha própria arma. Nada na parede esquerda à saída do elevador. Me resta abrir a porta do elevador por inteiro e tentar do outro lado.
No segundo passo fora do elevador eu esbarro em algo... Da minha altura! Me jogo para trás e disparo a arma três vezes. Algo na parede atrás de mim acerta minhas costas. O fogo do disparo me faz enxergar algo à minha frente. Ele está sorrindo! Como alguém pode levar três tiros e ainda sorrir?
Minhas costas doem. Levo a mão nas costas para ver se me machuquei. Estou encharcado. Mas não é sangue. Suor. Medo.
O que acertou as minhas costas foi a chave de luz. Eu levanto a chave na esperança de ter mais sorte do que no corredor abaixo. Duas lâmpadas se acendem. Sorte. Mas não muita. Uma lâmpada em cada extremo do andar. Lâmpadas maiores e mais fortes que a do corredor, mas insuficientes para iluminar um lugar tão grande. Mas já consigo enxergar algumas coisas. Manequins e bonecos. Ao que parece o andar inteiro está cheio de manequins e bonecos. Os manequins estão todos vestidos de pierrot ou de clows. Todos os bonecos são de palhaços. E todos em tamanho real. Eu acertei três tiros em um deles. Com três balas cravejadas eu seu corpo, uma maquiagem macabra e um sorriso feito de dentes triangulares, ele mantém os olhos fixos em mim. Quase como se estivesse vivo.
Ando com cuidado. Racionalmente eu sei que são bonecos, mas é como se todos estivessem me observado. É como se todos estivessem me olhando e pensando: “Você não vai sair vivo daqui!”
Nenhum dos bonecos ou manequins tem um aspecto comum ou alegre. Todos eles parecem ter saído de algum pesadelo distorcido. Alguns seguram balões vermelhos e me olham como se quisessem me devorar. Outros têm a expressão de quem está chorando, como se quisessem me contar o segredo do porquê estão tristes. Muitos estão escondendo seus olhos, mas mostrando sorrisos de tubarões. E ainda há aqueles que tem algum membro faltando e parecem estar urrando de dor. Todos me observam. “Você não vai sair vivo daqui!”
Estou preste a passar pelo que me parece ser a última leva de integrantes do circo dos horrores quando percebo algo. Como eu disse, a luz não é o suficiente para iluminar todo o ambiente, mas é possível enxergar alguma coisa. Alguém armado. Uso um boneco como escudo. Sua maquiagem, toda borrada, têm tintas verde, vermelha e preta. Seu cabelo é azul e todo espetado. Camisa branca, rosas murchas no lugar dos botões da camisa, suspensório preto, calça vermelha e sapato gigante completam a imagem. Ele olha pra mim. “Você não vai sair vivo daqui!”
Giro por trás do boneco e aponto a arma para o lugar onde vira o sujeito armado.
Largue a arma! FBI!
O sujeito já estava me esperando. Consigo ver quase nitidamente a arma dele apontada para mim. Pelo ângulo da arma dele, percebo que vou ser atingido bem no meio do peito. Não me resta alternativa além de atirar.
Eu atiro e me jogo de lado.
Não houve nenhum grito ou gemido. Apenas o som de vidro se quebrando com o disparo. Será que eu errei tanto assim? Oitenta e sete porcento de acertos nos treinos de tiro. Uma boa média. Mas só isso. Boa. Pelo visto acertei uma janela ou algo assim. Mas existe uma outra coisa estranha... Só eu disparei. Só ouvi um único disparo.
Eu fico de joelhos. Arma apontada para onde eu acho que está o sujeito. Dessa posição não é possível ver nada. Preciso me levantar.
De pé a visão volta a ser melhor. Eu caminho pra frente e encontro o sujeito. Nada de janelas. Eu acertei o sujeito em cheio. Oitenta e sete porcento. Uma boa média!
O sujeito sou eu mesmo. Eu acertei um espelho. Todo o fundo do andar, pelo visto, está forrado de espelhos. Começo a achar que todo esse medo é desnecessário. Me olho no espelho. A luz mal chega até onde estou. Posso ver minha camisa molhada de suor. Posso ver... Um dos palhaços movendo-se no fundo!
O susto faz a racionalidade ir para o espaço. Eu corro em direção de algum ponto mais escuro. Esbarro em 3 ou 4 bonecos que caem no chão. Mesmo do chão eles olham pra mim. “Você não vai sair vivo daqui!” Se eu não posso vê-lo, então ele também não poderá me ver. Prendo a respiração para conseguir ouvir melhor. Sapatos de palhaço são grandes. Impossível andar com aquilo sem fazer barulho. Ou não?
Chego ao meu limite prendendo a respiração. Solto o ar, mas devagar, tentando não fazer barulho. Eu escuto minha respiração. E se eu escuto, talvez o palhaço também escute. Sei que isso soa bem paranóico, mas devido a atual situação, não há como não ser paranóico.
Sou pego de surpresa pelo flash de uma máquina. Não, não é um flash. Se faltava alguma coisa para completar esse pesadelo, deste instante em diante não falta mais. Começa a chover violentamente do lado de fora. Nem mesmo as sujas janelas do local impedem a claridade dos relâmpagos de invadirem o ambiente. Mas devido a fúria da chuva, a energia elétrica desaparece. Agora só posso contar com a luz dos relâmpagos. A pouco eu ainda podia ver a lua! De onde surgiu essa chuva? Cada gota que cai no velho telhado metálico parece uma marretada. Sem enxergar nada e ser ouvir nada. É ou não um pesadelo perfeito?
À luz dos relâmpagos, o que mais se sobressai são os olhos e sorrisos dos bonecos. Sorrisos que mais parecem navalhas prontas para me retalhar. E olhos que parecem selar meu destino. “Você não vai sair vivo daqui!”
Eu ando à medida que os relâmpagos iluminam o lugar o suficiente para que eu não esbarre ou tropece em nada. Sinto meu corpo encharcado. Respiro fundo a fim de evitar que as mãos tremam. Não está funcionando muito. Oitenta e sete porcento de acerto nos treinos de tiro... Mas com as mãos firmes.
Começo a procurar um padrão no intervalo entre os relâmpagos. Sou bom com números. Isso tem que valer de alguma coisa numa missão de campo. Não consigo achar nada. Se não fosse o fato de queda de relâmpagos ser algo absurdamente caótico, estou nervoso demais para conseguir calcular qualquer coisa.
Não posso me esquecer que os relâmpagos também me iluminam. Eu preciso ter cuidado...
Um relâmpago 1 segundo mais demorado que os outros rasga o céu. Ele está do meu lado esquerdo. Não consigo ver seu rosto. Uma máscara. Não! Óculos de visão noturna! Todo tempo ele esteve me vendo! Eu escuto um disparo. E dessa vez não foi eu quem disparou. Sou jogado no chão. Pareço um homem morto no chão. Pareço!
Quando o palhaço aproxima-se de mim para conferir se estou morto, agarro suas pernas forçando sua queda. Com a queda ele deixa a arma cair.
Eu ainda estou armado, mas não posso vê-lo. Ele não está mais armado, mas pode me ver claramente.
Agarro sua roupa de palhaço. Mesmo sem poder vê-lo, estando agarrado à sua roupa, não tenho como errar o disparo.
Se mexer um único dedo você morre desgraçado! – eu grito para ele, com esperança que ele fique com mais medo do que eu estou.
Sinto um murro me acertar. Algo como se ele tivesse girado o corpo com toda força possível. Não solto a roupa. Ela se rasga. Ele se livra de mim e com a ajuda dos relâmpagos foge em direção do elevador, derrubando todos os manequins a sua frente.
Percebo que estou sem respirar. Abro a boca e puxo o ar com força. O pulmão chega a doer. Mas não mais que meu ombro. Consigo sentir a bala alojada nele.
Ligo meu rádio, que permanecera desligado o tempo todo para evitar que qualquer ruído denunciasse minha presença. Me identifico e chamo por socorro médico.
5 dias atrás. 14:27 hs.
Meu ombro ainda dói bastante. Mesmo com a ajuda de uma tipóia. O médico disse que eu tive sorte, pois a bala não estilhaçou quando atingiu o meu ombro. E no momento, essa é a menor das minhas preocupações.
Estou afundado num sofá, na ante-sala do chefão do Bureau. Dentro de 3 minutos eu tenho uma reunião com ele para explicar tudo o que aconteceu. Não vai ser nada fácil.
Como explicar que um agente da equipe de análise, que nunca realizara uma única missão de campo na vida, simplesmente decidiu correr atrás de uma pista só porque a equipe que investiga o caso decidiu ignorar suas deduções?
Com certeza ele vai me dizer que todas as opções têm que ser descartadas e que no momento certo a minha linha de raciocínio seria analisada e investigada. Que o fato de eu ter ajudado a esclarecer outros crimes de grande repercussão, isso não faz de minhas análises a prioridade número 1 do FBI.
Eu vou contra-argumentar falando do fator tempo. Vou dizer que evitar o desperdício de tempo evitaria mortes desnecessárias. Só que o chefe não é conhecido apenas pela sua competência como agente durante décadas; é conhecido também por ter resposta para tudo! Mas não consigo imaginar o que ele poderia me dizer para rebater a questão do tempo. O fato de eu não imaginar não significa que não vou descobrir. E com certeza será dolorido para meu ego.
A secretária me manda entrar.
Sabe quando você perde um parente e por estar organizando tudo para o enterro acaba chegando tarde no velório? Então, quando você chega as pessoas olham para você com aquela cara de “coitado dele”? É assim que a secretária me olha quando me dirijo à porta.
Dou duas batidinhas na porta, peço licença, escuto a voz do chefe me mandando entrar e entro.
Ela está sem seu computador. Digita alguma coisa. Provavelmente algum e-mail.
Comece a falar Christensen. – me disse o chefe sem nem se dar ao trabalho de me olhar.
Não há muito o que dizer chefe – comecei a dizer – Depois de uma análise detalhada do caso eu observei fortes evidências do provável paradeiro do assassino. Os agentes Monroe e Willigham decidiram ir atrás de outra evidência apesar de toda minha insistência...
Christensen, todas as opções, numa investigação têm que ser descartadas. Quando chegasse o momento, a linha que você apontava seria investigada. Todos aqui sabemos o quanto você é brilhante e o quanto já nos ajudou desde que passou a fazer parte da equipe de análises.
Bingo!
Mas o tempo era fundamental senhor! Eu pensava apenas em evitar mais mortes!
O chefe para de digitar e vira-se para mim. Algo me diz que eu deveria primeiro ter concordado com o que ele disse para depois tentar contra-argumentar qualquer coisa. Mas agora é tarde demais.
Se tivesse morrido você teria atingido o seu objetivo agente Christensen?
Não sei admiro ou odeio ele. A reputação o precede!
Não senhor. – eu respondo.
Ir até aquele local sozinho foi uma das maiores burrices que vi em toda a minha carreira agente Christensen... – me disse o chefe.
Fato!
Até consigo entender sua linha de raciocínio. Se falasse para alguém o que estava planejando fazer, se tentasse levar algum reforço com você para invadir o local, é certo que não conseguiria ajuda e talvez até impedissem você de ir... – ele continuou.
Ele é bom mesmo!
Você analisou suas probabilidades de sucesso antes de entrar naquele lugar agente Christensen? – me perguntou o chefe.
Está usando contra mim meu modo de agir! Achei que só eu conseguia fazer isso com os outros!
Na verdade sim... – comecei a dizer – Cheguei a 3,47% de chances de sucesso.
Uma péssima porcentagem, não concorda comigo agente Christensen? – observou o chefe.
Sim senhor. – eu respondi.
E mesmo tendo consciência de sua baixíssima probabilidade de sucesso você entrou. Se você estivesse na sua mesa e essas informações todas chegassem até você, como classificaria o agente que teve tal atitude? – me perguntou o chefe.
Ele quer que eu me autoflagele! Estamos entrando no campo da crueldade!
Informalmente chamaria o agente de imbecil irresponsável senhor. – eu respondi.
Definição perfeita agente Christensen – concordou o chefe comigo pela primeira vez.
O chefe começa a me olhar. Deve estar pensando o que fazer com um agente como eu. Se existir alguma espécie de posto avançado no Tibet ou Djibuti, provavelmente serei transferido para lá. Ainda existe a opção de me promover a sub-auxiliar de ajudante de catador de clipes usados. E para vergonha geral, posso ser expulso do FBI. Ser mandado para o Tibet não é tão ruim quando vemos as opções que restam.
Você sabe que não me resta muitas alternativas do que fazer com você não é mesmo agente Christensen? – me pergunta o chefe com uma expressão indecifrável.
Leite de iaque deve ter um gosto horrível!
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