A Prisão de Almas
Pedaço 1 – A prisão
Hoje, 11:58 hs.
O endereço é esse. O número também está correto. Mas o que vejo nada se parece com uma prisão ou um instituto penal, ou ainda, qualquer coisa do gênero. O prédio à minha frente mais parece a construção de um futuro shopping center que ficou pela metade. O que na verdade, não me surpreenderia em nada se fosse o intuito. Quem, em sã consciência, construiria um shopping nesses lados da cidade?
As paredes estão bastante pichadas... Algumas paredes estão com nomes e figuras gravadas. Sabe quando jovens gravam seus nomes dentro de um coração num tronco de árvore? Desse mesmo jeito. Só que, no mínimo, usaram uma chave de fenda para isso. Escrever no concreto não é tão fácil quanto escrever no tronco de uma árvore. Devo andar bem desatualizado com essas coisas. Não reconheço nem uma palavra e nenhum dos símbolos pichados ou gravados. Quem quer que tenha feito essas gravações deve ter muito tempo ocioso...
O chefe me disse que mesmo com o ofício que me dera, ele mesmo faria uma ligação avisando da minha chegada. Disse que prevenir nunca é demais e que o pessoal que eu ia conhecer não estava muito acostumado a visitas.
Toco a campainha. Na verdade, pela forma e cor, mais parece o botão de emergência de uma usina nuclear adaptada como campainha.
No alto da porta, uma pequenina caixa de som, que confesso que ainda não havia notado, chama, perguntando quem é.
- Agente Christensen. Aidan Christensen. Tenho uma carta... Um ofício me autorizando a interrogar um preso.
A voz me pede que espere por um minuto.
Estou no 73 quando ouço um barulho de tranca se abrindo. Um segundo barulho. Um terceiro, um quarto e um quinto. Todos os barulhos são bem forçados. Como se as trancas (se é que são mesmo trancas) não fossem abertas com freqüência. Um sexto barulho. Mesmo sendo extremamente abafado, escuto o som de um grito pela pequenina caixa de som. Um palavrão. A porta se abre pro lado de fora. As portas onde realmente deseja-se manter o lugar seguro, sempre abrem pro lado de fora. Não é qualquer chute ou marretada que a abrirá. Se for de aço como essa então, será necessário um carro-forte bem acelerado para abri-la. E lógico, um sujeito totalmente desprovido de sanidade para estar dirigindo o carro-forte e chocar-se com a porta.
Um sujeito vestindo-se todo de preto, com exceção da camisa branca, chupando a base do dedão da mão direita me pede a carta. A imaculada camisa branca tem uma bela mancha vermelha de sangue. O que quer que tenha feito o sexto barulho cortou a mão do sujeito. O sujeito intercala a leitura da carta com olhadelas na mão para ver se parou de sangrar. Finalmente entre uma chupada e outra ele me manda entrar.
Quando entro o sujeito fecha a porta. Esqueça o que eu disse sobre um carro-forte e um piloto louco para derrubar essa porta. É melhor chamar logo o Eisenhower ou George Washington. A porta da frente é apenas uma fachada. Uma fachada de quase cinco centímetros de espessura. A verdadeira porta abre para dentro. Uns dez centímetros com certeza. Seis trancas de funcionamento mecânico-manual. Trancas mais largas que cabos de vassoura. Aço, sem a menor sombra de dúvida. A porta do prédio sede do Bureau parece até a entrada de um parque de diversões se comparada com isso aqui. Que raio de lugar é este? Está certo que se for para manter presos supostamente mortos escondidos de todos é preciso uma segurança e uma fachada de primeira... Mas isso aqui... Poxa!
O sujeito me pede para segui-lo.Diz-me que já estavam esperando pela minha chegada e que ficaram surpresos. Que há muito tempo não aparecia ninguém aqui para fazer um interrogatório. Mesmo com a boca ocupada pela mão o sujeito me pede para não tocar em nada. O lugar está longe de ter a melhor iluminação do mundo. Não faltam locais para colocarem lâmpadas. O que falta são lâmpadas funcionando. Estranhamente o local que parece não ser muito bem cuidado devido às inúmeras lâmpadas queimadas, não tem uma única teia de aranha. Tudo bem limpinho.
Ao final do caminho nos deparamos com três portas. Uma de cada lado e outra ao centro. Entramos pela porta da esquerda. O local é uma espécie de copa cozinha. Bem limpinha e arrumada. Armários brancos, pia de mármore, uma mesa com oito lugares coberta com uma pequena toalha e um arranjo de flores no meio. Uma geladeira, um fogão e um micro-ondas completam. Poderia ser a cozinha de qualquer casa comum.
O sujeito puxa algumas folhas de guardanapo de papel de um rolo preso à parede, segura junto à mão e me pergunta se gosto de café com leite.
- Puxe uma cadeira... Vou preparar um café para nós – ele me diz – De que jeito você gosta?
- Vocês têm creme? – eu pergunto.
- Claro. E é uma excelente pedida. Dois com creme então.
O cheiro do café enche a cozinha. Poucas coisas nesse mundo cheiram tão gostoso como um bom café que acabou de ser feito. Os biscoitos da Sra. Freeman. O bolo de cenoura com chocolate de minha mãe.
O agente me entregou a caneca. Dava para ver que a caneca não era nova, mas de qualquer forma estava muito bem conservada. Era toda branca, com o desenho de uma mão. Como se uma mão, coberta de tinta preta, tivesse segurado a caneca. Diferente. Muito bonita.
- Eu me chamo agente Norton. Calleb Norton. Você sabe onde está agente Christensen? – me disse o agente.
- Muito prazer em conhecê-lo agente Norton. Bem, não há uma grande opção de respostas para sua pergunta. Se quem estou procurando para interrogar está aqui, isso aqui só pode ser uma prisão.
- Correto Christensen. E que tipo de prisão acredita que seja? – ele me pergunta.
Tomo mais um gole do café, que está muito bom por sinal, antes de responder.
- Vim aqui para interrogar Stewart McDormand. Preso em 23 de julho de 1972. Condenado à cadeira elétrica, foi executado... Ou ao menos acredito ter sido... Em 14 de setembro de 1973. Se ele realmente está aqui, então isso deve ser uma espécie de prisão para criminosos supostamente executados e, por algum motivo que desconheço, mantidos vivos e presos.
- Sabe porque McDormand foi condenado à cadeira elétrica agente Christensen?
- Porque assassinou de forma fria, meticulosa e cruel 5 pessoas.
- 7 pessoas – me corrigiu o agente Norton.
- Tem certeza? – eu perguntei – Costumo ser bom com números.
Sou formado em matemática em Yale. Sempre fui bom com números. De acordo com meu pai, o melhor que ele já vira em toda sua vida. Meu pai leciona em Yale e nunca foi chegado a exageros. Com o tempo, me acostumei com os elogios quando o assunto eram números.
- Sim, tenho certeza. Mas não se culpe por isso. O relatório que leu com certeza está errado.
Até que eu reveja aquele relatório, vou me culpar sim! Eu me conheço. A última vez que errei uma conta me flagelei por semanas. Eu tinha 7 anos.
- Pois bem – continuou o agente Norton – devo agora dizer que suas suposições quanto a essa prisão estão completamente erradas.
- Mas se estou errado, o que estou fazendo aqui? De que vale esta autorização para interrogar McDormand? – eu perguntei.
- Ela é totalmente válida agente Christensen. E sem ela, posso te garantir, teria passado a vida toda no Bureau sem saber da gente.
- Então... – eu comecei a falar.
- Vou te contar uma pequenina história agente Christensen. – me disse Norton.
“Em 1912 um jovem chamado George Brown foi a julgamento pelo assassinato de duas pessoas. O jovem se declarava inocente. Mas todas as pistas levavam a ele. Não me pergunte como, mas quem o defendia conseguiu uma testemunha que poderia inocentar o rapaz. Uma senhora romena chamada Adela Omer. A senhora Omer, diante do juiz, afirmou realmente que o jovem George não cometera crime algum. Que quem os cometera fora a alma de Steve Lancaster, um assassino que fora preso e executado dois anos antes. Não preciso nem dizer que o tribunal se tornou, conforme os relatos da época, um misto de risadas e palavras de indignação. Mas a senhora Omer não se abalou em instante algum. Apenas disse que se fosse permitido que se aproximasse do acusado, que ela provaria o que estava dizendo. O juiz, que era uma das poucas pessoas que absteve de expressar qualquer emoção, fez um gesto consentindo. A mulher romena então chegou perto de George Brown, colocou a mão em sua testa, disse algumas palavras que ninguém entendeu e o jovem Brown caiu num sono profundo. Omer pediu que um guarda batesse no réu o mais forte que conseguisse. Com o consentimento do juiz, o guarda o fez. George Brown não deu nem sinal de que sentira o golpe, então nem é preciso dizer que não acordou. Adela Omer então chamou por Lancaster... Ao menos foi o que pareceu à todos. Pois não se entendia muito bem o que ela estava falando. Mas todos que estavam por perto podiam distinguir muito bem quando ela dizia o nome de Steve Lancaster. – Sei que está aí! Olhe pra mim quando eu mando! – disse, aos berros, a senhora Omer ao réu. George Brown então levantou sua cabeça. É incrível como o relato do único jornalista presente no local e do escrivão foram parecidos quando George Brown levantou sua cabeça. Seus olhos. Na verdade, o olhar. Definitivamente não era George Brown que olhava para todos naquele momento. O juiz confessou posteriormente que um arrepio subiu-lhe a espinha naquele instante. Ele reconhecera o olhar no mesmo instante. Era o mesmo olhar que vira dois anos atrás quando condenara Steve Lancaster à pena de morte. Olhos frios. Olhos assassinos. O réu tentou, naquele instante, saltar da cadeira em que estava. Felizmente para o juiz, ainda usavam correntes presas a bolas de ferro naquela época. – Era você! Era seu corpo! Eu queria seu corpo! Maldito seja! Era seu corpo que eu queria usar... – gritou e babou o réu antes que um golpe forte acertasse sua cabeça e o fizesse perder os sentidos. A senhora Anela Omer apenas olhou para juiz. Ele suava. O jornalista descreveu em seu artigo que o juiz parecia ter desaprendido como se respirava. O juiz então mandou que apenas a quem interessasse aquele julgamento permanecesse na sala e que os demais fossem retirados. Sobraram então o próprio juiz, o escrivão, três guardas, o réu, o promotor, a senhora Omer e a mãe de réu.”
- Está prestando atenção a tudo agente Christensen? – me perguntou Norton.
- Sim – eu respondi, querendo saber aonde aquela história chegaria e o que ela tem haver com o interrogatório que vim fazer – Continue!
“O juiz, ainda bastante abalado e surpreso virou-se para a senhora Omer e disse que ela conseguira provar o que havia dito... Mas o que fariam então? A senhora Omer disse, com seu forte sotaque romeno, que a situação não era das mais complicadas. Ela afirmara que poderia livrar o jovem George Brown da alma de Steve Lancaster. Os guardas se olharam. O juiz olhou no fundo dos olhos da senhora Omer e perguntou como. A imigrante disse que precisaria de um jarro de vidro bem grosso com tampa, um carretel de cordão de boa qualidade e um pincel fino com tinta preta. Depois que tudo fora arranjado a senhora Omer não perdeu tempo. Com o pincel escreveu e desenhou várias coisas pelo jarro, inclusive a tampa. Colocou o jarro com a tampa aberta de frente ao réu e começou o que pareceu uma espécie de reza ou prece. Seja como for, o escrivão não reconheceu a língua. Ao término, rapidamente a senhora Omer tampou o jarro e usou o cordão para a tampa junto ao jarro, dando várias voltas em torno do mesmo.”
- Está tentando me dizer que essa senhora romena aprisionou a alma do tal Lancaster dentro do jarro? – eu perguntei.
- Exato! – respondeu Norton.
- Mas se era uma alma, porque ela simplesmente não saiu de dentro do jarro?
- Os desenhos e as escritas feitas no jarro eram um feitiço que impedia a alma de sair – novamente respondeu Norton, tentando analisar como aquela resposta seria assimilada por mim.
- Feitiço? – perguntei com total e completa incredulidade.
- Sim. – respondeu o agente Norton como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
- Me desculpe se pareço cético quanto a isso agente Norton, mas sou um homem que cresceu dentro de um lar onde a ciência e os números eram quase uma religião.
- Está desculpado Christensen – respondeu Norton – Eu mesmo tive uma certa dificuldade de assimilar tudo isso quando fui designado pra cá.
- Então, onde exatamente eu estou agente Norton? – eu perguntei enquanto olhava para minha caneca que já estava vazia.
- Mais um? – me perguntou Norton.
- Não, obrigado. – eu respondi.
- Agente Christensen, você está num dos segredos mais bem guardados do Bureau. Você está na prisão de almas. – me explicava Norton enquanto colocava nossas canecas dentro da pia – O local onde estão presas as almas de pessoas que mesmo após suas mortes, utilizando-se do corpo de outras pessoas, continuaram cometendo seus crimes.
- Como o tal Lancaster da história que me contou?
- Exatamente!
- Então agente Christensen, se o senhor está aqui com esse passe livre para tentar interrogar McDormand, é porque o caso em que está deve ser realmente importante.
- Exato! – eu respondi.
- E posso saber do que se trata?- perguntou Norton.
- Peço perdão... É confidencial.
- Eu já imaginava. – disse Norton.
- Mas posso te fazer uma confissão bastante particular agente Norton... Ainda que racionalmente eu saiba que o Bureau jamais manteria um lugar assim para algo que não existe... Ainda que racionalmente o diretor, sabendo o caso em que eu estou envolvido, jamais me faria vir aqui se não fosse algo que realmente exista... Eu te digo, está sendo absurdamente difícil para eu acreditar nisso tudo.
- Eu compreendo – respondeu Norton – Mas me siga. Isso não é nada que uma boa olhada em nossas celas não possa persuadi-lo.
Eu sigo Norton pela porta do meio do corredor. Fico imaginando o que teria na porta da direita.
- Já ia me esquecendo. Se precisar ir ao banheiro, é só falar. O banheiro é naquela porta à direita do corredor.
Ahhhhhhhh.
Entramos numa espécie de saleta. Nela há uma outra porta, uma mesa com cadeira, dois sofás de dois lugares, dois velhos armários de aço e um vaso com um bonsai, implorando por água, em cima de um dos armários.
Norton vai até um o armário sem bonsai e em alguns segundos retira uma pasta de dentro dele. Ele coloca a pasta em cima da mesa e me chama para olhar. Na mesa há também um caderno de passatempos aberto na página de um sudoku. Preciso me esforçar para não olhar para os quadradinhos do jogo.
- Veja Christensen... Sete mortes... Como eu havia dito.
A expressão “sete mortes” chama a minha atenção. Os assassinatos de McDormand. Dois assassinatos a mais do que constava no relatório a que eu tive acesso.
Folheio com calma o conteúdo da pasta. As duas mortes que não constavam no relatório do Bureau. Não havia como suspeitar de outra pessoa. O “modus operandi” era idêntico. Ou aquelas duas mortes seriam obra de um fã tão obcecado por detalhes, ou seriam do próprio McDormand. Isso é apenas mais uma peça do quebra-cabeça que se forma na minha cabeça. Ainda faltam muitas para que o quadro esteja completo e eu aceite como fato essa prisão de almas. Fecho a pasta e a empurro em direção de Norton.
- Agora vamos a algumas regrinhas bastante simples, mas de extrema importância, que você precisa saber antes de entrarmos por aquela porta. – disse-me Norton enquanto guardava cuidadosamente a pasta no mesmo lugar de onde a tinha tirado.
Eu não resisto e começo a olhar o jogo.
- Primeira regra: Não ultrapasse a linha branca em hipótese alguma!
Nove... Sete... Seis... Quatro... Cinco... Três...
- Segunda regra: Mesmo de trás da linha branca não toque nas celas em hipótese alguma!
Dois... Um... Oito... Sete... Seis... Nove... Cinco...
- Terceira Regra: Não importando se você acreditará ou não no que ver, não grite... Isso os costuma deixar mais agitados que o normal.
Cinco... Três... Um... Oito... Sete... Dois...
- Quarta e última regra: Não faça comentários sobre a aparência deles... Isso também não ajuda em nada.
Nove... Sete... Seis... Dois... Um... Bingo!
- Estamos entendidos agente Christensen?
- Sim agente Norton. – eu respondo – sem ter ouvido tudo com a atenção que merecia.
Então, entramos pela porta.
Está tudo escuro. Norton levanta as chaves de um disjuntor. Grandes luminárias como as de fábrica vão se acendendo uma a uma como se a energia fosse chegando de forma lenta e mecânica. As luminárias revelam um grande corredor com o que poderia ser um grande viveiro se houvessem grades nas colunas a minha frente.
- Desculpe a escuridão – foi me dizendo Norton – mas devido a nossa categoria de presos, elas não costumam serem necessárias. Só quando chega “alguém novo” ou aparece alguém querendo interrogá-los essas lâmpadas são acesas.
Eu olho para Norton. Ele faz sinal com a cabeça para que eu siga em frente. Há uma linha branca pintada no chão. Lembra a linha de segurança de uma estação de metrô, mas não tão gasta. Lembro-me de ter ouvido algo sobre linha branca nas tais regras. Mas estava concentrado demais no sodu para lembrar de detalhes.
- Estas são as nossas celas... – foi me dizendo Norton enquanto caminhávamos.
Celas? Como eu disse, parece mais um grande viveiro sem grades. Quatro colunas dispostas, no que me parece, em quadrados de 1,5 m². As colunas estão todas repletas de escritos e símbolos... Escritas e símbolos parecidos com... Com as que eu vi do lado de fora do prédio! As quatro colunas são interligadas por quatro hastes. Todas também repletas com as mesmas coisas que as colunas. Entre cada uma das celas há um espaço que não deve ser superior a 30 centímetros. No centro de cada quadrado há apenas um simples banquinho de madeira.
- Fique aqui – me disse Norton enquanto caminha adiante no corredor – vou pegar uma coisa para ajudar. E não se esqueça de não ultrapassar a linha branca!
Fico olhando para cela que paramos adiante. Não há nada demais. Só as quatro colunas com as quatros hastes interligando-as e o banquinho ao centro.
Quando começo a me sentir compelido a atravessar a faixa (meu lado racional me dizia que nada tinha ali que pudesse oferecer perigo!), Norton voltou com uma handcam com tripé na mão.
Norton colocou a handcam o mais próximo da linha branca possível, virou o pequeno visor para meu lado e ligou-a.
A handcam, das primeiras a ter um pequeno visor para quem gravava, começa com algo pouco mais do que chuviscos. Aos poucos vai tomando forma. No início uma imagem disforme, mas que aos poucos vai formando seus contornos. A imagem mostra a figura de um homem. Eu olho para a cela e para o visor. O coração fica acelerado. Preciso forçar a piscada. Por instinto não estou conseguindo fazer isso. Olho para a câmera para me certificar que foi o botão REC que Norton apertou e descartar a possibilidade de algo já gravado. Está tudo certo. Infelizmente... Ou felizmente! Novamente olho para cela e depois para a câmera. Nada na cela. E na câmera a figura de um homem. Ele está sentado no banquinho de madeira no centro da cela... De cabeça baixa. O coração acelera um pouco mais. Esfrego cada um dos olhos com as palmas das mãos.
A figura no visor da câmera levanta a cabeça... McDormand!
O coração acelera ainda mais. O ar desaparece como que por mágica. Quando me posto reto para conseguir respirar melhor, sinto a cabeça pesando além do normal... Me puxando para trás como se eu tivesse sido laçado. Cambaleio para trás, encontrando a parede sólida que me ajuda a manter-me de pé.
- Está se sentindo bem agente Christensen? – pergunta Norton preocupado comigo, mas sem estar surpreso com minha reação – Agüente um pouco... Vou pegar uma cadeira e um copo d’água para você.
Me escoro na parede. A respiração teima a voltar ao normal. A cabeça ainda pesa. Viro-me para parede. Testa na parede e olhos fechados. Preciso raciocinar sobre isso. Procuro na cabeça uma equação matemática que faça tudo isso ter alguma lógica. Tempo perdido, é lógico! Quero me virar e olhar para o visor. O pouco ar que circula pelo cérebro me faz ser racional o suficiente para não me virar... Esperar Norton com a água e a cadeira. Forço a lembrança do sodu que fizera há pouco. A vontade de me virar e olhar para aquele visor é imensa e a idéia de estar sendo observado não está ajudando muito.
- Aqui está a sua água... Sente-se aqui – me diz Norton com uma cadeira e um copo de água na mão.
- Obrigado – eu respondo – pegando o copo de água, mas sem tirar a testa da parede.
- Não se recrimine – começa a falar Norton – Sua reação é perfeitamente normal. Pelo que me lembro, a minha foi ainda pior.
Eu começo a beber minha água. Cada gole desce com uma certa dificuldade. Sabe quando você é criança e tem que tentar engolir um comprimido pela primeira vez?
- Vamos agente Christensen... Sente-se aqui – diz Norton – Respire e recomponha-se. Se quiser mesmo interrogar McDormand vai precisar mostrar alguma fibra ou não vai conseguir arrancar nada dele.
Interrogar! A palavra traz um pouco de mim de volta. Eu me viro e sento na cadeira. Encaro o visor. McDormand está me encarando. Se não for nenhuma distorção da imagem da câmera, então é certo que há um sorriso cínico no canto da boca dele.
Acho que Norton também falou alguma coisa sobre aparência. A aparência de McDormand parece a de um corpo putrefado. Olhando para ele, é quase possível sentir o cheiro.
Mas o pior não é isso. O pior é meu lado racional tentando equacionar tudo isso. Diante de mim está a alma de um dos assassinos seriais mais cruéis que já existiu. A alma! Você não recebe treinamento no Bureau para esse tipo de situação. Você é treinado para interrogar gente viva. Gente viva pode ser ameaçada, torturada, coagida, chantageada... Você pode fazer qualquer coisa para obrigá-la a falar. Mas estando morta, o que ela tem a perder?
No bolso do meu paletó eu pego um bloco de anotações e uma caneta. Não confio muito em coisas como Blackberry e Smartphone... A probabilidade de darem problemas são grandes demais para alguém, paranóico por números como eu, usar qualquer um desses dois.
- Você é Stewart McDormand? – eu pergunto. Sei que a pergunta, diante da situação, soa bastante imbecil. Mas não tinha outra idéia de como começar isso aqui.
- Ah! Me desculpe! – me disse Norton – O microfone. Antes, mais um alerta. As celas podem prendê-los, mas não pode impedir que... Que se expressem! O que é óbvio, senão, como interrogaria um deles, certo?
Certo. – eu respondo, sem entender muito bem o que ele quis dizer com isso.
Norton liga o microfone.
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