segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Prisão de Almas - Pedaço 2

Pedaço 2 – A investigação

Uma semana atrás. 23:19 hs.
Não sou muito chegado em lugares escuros. Não que eu tenha medo. Quando vou dormir até mesmo o relógio digital da cabeceira me incomoda. Então, não é o escuro o problema. O grande problema é onde está escuro.
O prédio onde estou já foi um depósito de peças de caminhão. Hoje faz a casa da família Adams parecer um carrossel colorido e luminoso.
Por algum motivo que não vale à pena ficar queimando neurônios para descobrir, o corredor a minha frente parece não ter nenhuma escada que leve ao andar superior. As paredes ao meu lado esquerdo sobem alto, alcançando janelas imundas. As que estão quebradas permitem a entrada do luar. A única fonte de luz que eu possuo. Com mais dois passos à frente eu consigo visualizar o que parece ser uma chave de luz. Eu a levanto. Uma única lâmpada, ao final do corredor, se acende. A luz é muita fraca. Se tiver um urso pardo no fim desse corredor eu só conseguirei vê-lo quando já estiver sentindo o hálito dele. Eu quase prefiro contar com a luz da lua que entra pelos buracos nas janelas altas.
Arma na mão. Repasso mentalmente os meus últimos sete treinos de tiro. Oitenta e sete porcento de acerto. Uma boa média. Mas só isso. Boa. Treze por cento de erros é um número grande demais. Se houver alguém armado no fim do corredor, as chances de eu ser alvejado são de 90 porcento. Uma ótima média, o que é muito ruim para mim.
Procuro caminhar tentando fazer o menor ruído possível. Mas cada passo que dou parece que estou deixando cair uma pilha de pratos no chão. Se houver alguém armado no fim do corredor, ele tem mais de 50 porcento de chance de me acertar se guiando pelo som. Uma excelente média levando-se em conta que eu nem vou ver da onde veio o tiro.
Mais alguns passos e percebo uma porta de aço do meu lado esquerdo. Uma dessas portas de correr. Tento forçar abri-la, mas de modo que não faça barulho. Ou está trancada ou muito bem emperrada. Penso em forçar mais um pouco, mas as chances de fazer um barulho imenso me faz repensar.
Continuo andando. Já estou perto o suficiente da lâmpada para ver o pouco que ela consegue iluminar. A porta de um elevador. Desses antigos, de porta sanfonada e que, muito provavelmente ainda usava correntes no lugar do cabo de aço.
Mais alguns passos. Já consigo ter certeza que não há nada e nem ninguém me esperando no final do corredor. O que não significa que não tenha alguém me esperando dentro do elevador.
Só agora começo a perceber o cheiro desse lugar. Óleo, óleo queimado, borracha queimada e mais algumas coisas que não consigo distinguir.
Estou a um passo da porta do elevador. Um barulho chama a minha atenção. Algo atrás de mim. Viro-me num único movimento. Arma apontada pra frente. Arma apontada para o nada. O corredor por onde eu vim está escuro demais para que eu enxergue qualquer coisa. Começo a sentir o meu colarinho molhado de suor. Não é calor o que estou sentindo. É medo. Nenhum tiro e nenhum barulho. Talvez não seja nada. Talvez um rato.
Volto em direção do elevador novamente. A porta sanfonada está fechada. Felizmente por suas frestas posso ver que não há ninguém dentro dele.
Abro a porta. O elevador é bem grande. Do tipo que carregaria o pneu de um trator se fosse preciso. Não há painel. O elevador é realmente antigo. Há apenas uma alavanca indicando o térreo e o andar superior. Calculo as chances dele ainda estar funcionando e empurro a alavanca para que suba.
Um estalo. Alguns rangidos. O barulho de correntes a muito tempo descansando sendo forçadas a trabalhar. Após o solavanco que me faz lembrar um bang-jump, começo a subir de forma lenta, mas contínua. O último vestígio de luz da lâmpada do corredor desaparece do meu pé. Novamente me encontro imerso na mais completa escuridão. Meus únicos companheiros são os resmungos do velho elevador.
Chego ao andar superior. Penso se devo abrir a porta de forma lenta e silenciosa ou escancará-la logo de uma vez. A primeira opção é a mais sensata.
Abro a porta. Tateio a parede ao lado a procura de algum interruptor ou chave de luz. Está tão escuro que não consigo enxergar minha própria arma. Nada na parede esquerda à saída do elevador. Me resta abrir a porta do elevador por inteiro e tentar do outro lado.
No segundo passo fora do elevador eu esbarro em algo... Da minha altura! Me jogo para trás e disparo a arma três vezes. Algo na parede atrás de mim acerta minhas costas. O fogo do disparo me faz enxergar algo à minha frente. Ele está sorrindo! Como alguém pode levar três tiros e ainda sorrir?
Minhas costas doem. Levo a mão nas costas para ver se me machuquei. Estou encharcado. Mas não é sangue. Suor. Medo.
O que acertou as minhas costas foi a chave de luz. Eu levanto a chave na esperança de ter mais sorte do que no corredor abaixo. Duas lâmpadas se acendem. Sorte. Mas não muita. Uma lâmpada em cada extremo do andar. Lâmpadas maiores e mais fortes que a do corredor, mas insuficientes para iluminar um lugar tão grande. Mas já consigo enxergar algumas coisas. Manequins e bonecos. Ao que parece o andar inteiro está cheio de manequins e bonecos. Os manequins estão todos vestidos de pierrot ou de clows. Todos os bonecos são de palhaços. E todos em tamanho real. Eu acertei três tiros em um deles. Com três balas cravejadas eu seu corpo, uma maquiagem macabra e um sorriso feito de dentes triangulares, ele mantém os olhos fixos em mim. Quase como se estivesse vivo.
Ando com cuidado. Racionalmente eu sei que são bonecos, mas é como se todos estivessem me observado. É como se todos estivessem me olhando e pensando: “Você não vai sair vivo daqui!”
Nenhum dos bonecos ou manequins tem um aspecto comum ou alegre. Todos eles parecem ter saído de algum pesadelo distorcido. Alguns seguram balões vermelhos e me olham como se quisessem me devorar. Outros têm a expressão de quem está chorando, como se quisessem me contar o segredo do porquê estão tristes. Muitos estão escondendo seus olhos, mas mostrando sorrisos de tubarões. E ainda há aqueles que tem algum membro faltando e parecem estar urrando de dor. Todos me observam. “Você não vai sair vivo daqui!”
Estou preste a passar pelo que me parece ser a última leva de integrantes do circo dos horrores quando percebo algo. Como eu disse, a luz não é o suficiente para iluminar todo o ambiente, mas é possível enxergar alguma coisa. Alguém armado. Uso um boneco como escudo. Sua maquiagem, toda borrada, têm tintas verde, vermelha e preta. Seu cabelo é azul e todo espetado. Camisa branca, rosas murchas no lugar dos botões da camisa, suspensório preto, calça vermelha e sapato gigante completam a imagem. Ele olha pra mim. “Você não vai sair vivo daqui!”
Giro por trás do boneco e aponto a arma para o lugar onde vira o sujeito armado.
Largue a arma! FBI!
O sujeito já estava me esperando. Consigo ver quase nitidamente a arma dele apontada para mim. Pelo ângulo da arma dele, percebo que vou ser atingido bem no meio do peito. Não me resta alternativa além de atirar.
Eu atiro e me jogo de lado.
Não houve nenhum grito ou gemido. Apenas o som de vidro se quebrando com o disparo. Será que eu errei tanto assim? Oitenta e sete porcento de acertos nos treinos de tiro. Uma boa média. Mas só isso. Boa. Pelo visto acertei uma janela ou algo assim. Mas existe uma outra coisa estranha... Só eu disparei. Só ouvi um único disparo.
Eu fico de joelhos. Arma apontada para onde eu acho que está o sujeito. Dessa posição não é possível ver nada. Preciso me levantar.
De pé a visão volta a ser melhor. Eu caminho pra frente e encontro o sujeito. Nada de janelas. Eu acertei o sujeito em cheio. Oitenta e sete porcento. Uma boa média!
O sujeito sou eu mesmo. Eu acertei um espelho. Todo o fundo do andar, pelo visto, está forrado de espelhos. Começo a achar que todo esse medo é desnecessário. Me olho no espelho. A luz mal chega até onde estou. Posso ver minha camisa molhada de suor. Posso ver... Um dos palhaços movendo-se no fundo!
O susto faz a racionalidade ir para o espaço. Eu corro em direção de algum ponto mais escuro. Esbarro em 3 ou 4 bonecos que caem no chão. Mesmo do chão eles olham pra mim. “Você não vai sair vivo daqui!” Se eu não posso vê-lo, então ele também não poderá me ver. Prendo a respiração para conseguir ouvir melhor. Sapatos de palhaço são grandes. Impossível andar com aquilo sem fazer barulho. Ou não?
Chego ao meu limite prendendo a respiração. Solto o ar, mas devagar, tentando não fazer barulho. Eu escuto minha respiração. E se eu escuto, talvez o palhaço também escute. Sei que isso soa bem paranóico, mas devido a atual situação, não há como não ser paranóico.
Sou pego de surpresa pelo flash de uma máquina. Não, não é um flash. Se faltava alguma coisa para completar esse pesadelo, deste instante em diante não falta mais. Começa a chover violentamente do lado de fora. Nem mesmo as sujas janelas do local impedem a claridade dos relâmpagos de invadirem o ambiente. Mas devido a fúria da chuva, a energia elétrica desaparece. Agora só posso contar com a luz dos relâmpagos. A pouco eu ainda podia ver a lua! De onde surgiu essa chuva? Cada gota que cai no velho telhado metálico parece uma marretada. Sem enxergar nada e ser ouvir nada. É ou não um pesadelo perfeito?
À luz dos relâmpagos, o que mais se sobressai são os olhos e sorrisos dos bonecos. Sorrisos que mais parecem navalhas prontas para me retalhar. E olhos que parecem selar meu destino. “Você não vai sair vivo daqui!”
Eu ando à medida que os relâmpagos iluminam o lugar o suficiente para que eu não esbarre ou tropece em nada. Sinto meu corpo encharcado. Respiro fundo a fim de evitar que as mãos tremam. Não está funcionando muito. Oitenta e sete porcento de acerto nos treinos de tiro... Mas com as mãos firmes.
Começo a procurar um padrão no intervalo entre os relâmpagos. Sou bom com números. Isso tem que valer de alguma coisa numa missão de campo. Não consigo achar nada. Se não fosse o fato de queda de relâmpagos ser algo absurdamente caótico, estou nervoso demais para conseguir calcular qualquer coisa.
Não posso me esquecer que os relâmpagos também me iluminam. Eu preciso ter cuidado...
Um relâmpago 1 segundo mais demorado que os outros rasga o céu. Ele está do meu lado esquerdo. Não consigo ver seu rosto. Uma máscara. Não! Óculos de visão noturna! Todo tempo ele esteve me vendo! Eu escuto um disparo. E dessa vez não foi eu quem disparou. Sou jogado no chão. Pareço um homem morto no chão. Pareço!
Quando o palhaço aproxima-se de mim para conferir se estou morto, agarro suas pernas forçando sua queda. Com a queda ele deixa a arma cair.
Eu ainda estou armado, mas não posso vê-lo. Ele não está mais armado, mas pode me ver claramente.
Agarro sua roupa de palhaço. Mesmo sem poder vê-lo, estando agarrado à sua roupa, não tenho como errar o disparo.
Se mexer um único dedo você morre desgraçado! – eu grito para ele, com esperança que ele fique com mais medo do que eu estou.
Sinto um murro me acertar. Algo como se ele tivesse girado o corpo com toda força possível. Não solto a roupa. Ela se rasga. Ele se livra de mim e com a ajuda dos relâmpagos foge em direção do elevador, derrubando todos os manequins a sua frente.
Percebo que estou sem respirar. Abro a boca e puxo o ar com força. O pulmão chega a doer. Mas não mais que meu ombro. Consigo sentir a bala alojada nele.
Ligo meu rádio, que permanecera desligado o tempo todo para evitar que qualquer ruído denunciasse minha presença. Me identifico e chamo por socorro médico.

5 dias atrás. 14:27 hs.

Meu ombro ainda dói bastante. Mesmo com a ajuda de uma tipóia. O médico disse que eu tive sorte, pois a bala não estilhaçou quando atingiu o meu ombro. E no momento, essa é a menor das minhas preocupações.
Estou afundado num sofá, na ante-sala do chefão do Bureau. Dentro de 3 minutos eu tenho uma reunião com ele para explicar tudo o que aconteceu. Não vai ser nada fácil.
Como explicar que um agente da equipe de análise, que nunca realizara uma única missão de campo na vida, simplesmente decidiu correr atrás de uma pista só porque a equipe que investiga o caso decidiu ignorar suas deduções?
Com certeza ele vai me dizer que todas as opções têm que ser descartadas e que no momento certo a minha linha de raciocínio seria analisada e investigada. Que o fato de eu ter ajudado a esclarecer outros crimes de grande repercussão, isso não faz de minhas análises a prioridade número 1 do FBI.
Eu vou contra-argumentar falando do fator tempo. Vou dizer que evitar o desperdício de tempo evitaria mortes desnecessárias. Só que o chefe não é conhecido apenas pela sua competência como agente durante décadas; é conhecido também por ter resposta para tudo! Mas não consigo imaginar o que ele poderia me dizer para rebater a questão do tempo. O fato de eu não imaginar não significa que não vou descobrir. E com certeza será dolorido para meu ego.
A secretária me manda entrar.
Sabe quando você perde um parente e por estar organizando tudo para o enterro acaba chegando tarde no velório? Então, quando você chega as pessoas olham para você com aquela cara de “coitado dele”? É assim que a secretária me olha quando me dirijo à porta.
Dou duas batidinhas na porta, peço licença, escuto a voz do chefe me mandando entrar e entro.
Ela está sem seu computador. Digita alguma coisa. Provavelmente algum e-mail.
Comece a falar Christensen. – me disse o chefe sem nem se dar ao trabalho de me olhar.
Não há muito o que dizer chefe – comecei a dizer – Depois de uma análise detalhada do caso eu observei fortes evidências do provável paradeiro do assassino. Os agentes Monroe e Willigham decidiram ir atrás de outra evidência apesar de toda minha insistência...
Christensen, todas as opções, numa investigação têm que ser descartadas. Quando chegasse o momento, a linha que você apontava seria investigada. Todos aqui sabemos o quanto você é brilhante e o quanto já nos ajudou desde que passou a fazer parte da equipe de análises.
Bingo!
Mas o tempo era fundamental senhor! Eu pensava apenas em evitar mais mortes!
O chefe para de digitar e vira-se para mim. Algo me diz que eu deveria primeiro ter concordado com o que ele disse para depois tentar contra-argumentar qualquer coisa. Mas agora é tarde demais.
Se tivesse morrido você teria atingido o seu objetivo agente Christensen?
Não sei admiro ou odeio ele. A reputação o precede!
Não senhor. – eu respondo.
Ir até aquele local sozinho foi uma das maiores burrices que vi em toda a minha carreira agente Christensen... – me disse o chefe.
Fato!
Até consigo entender sua linha de raciocínio. Se falasse para alguém o que estava planejando fazer, se tentasse levar algum reforço com você para invadir o local, é certo que não conseguiria ajuda e talvez até impedissem você de ir... – ele continuou.
Ele é bom mesmo!
Você analisou suas probabilidades de sucesso antes de entrar naquele lugar agente Christensen? – me perguntou o chefe.
Está usando contra mim meu modo de agir! Achei que só eu conseguia fazer isso com os outros!
Na verdade sim... – comecei a dizer – Cheguei a 3,47% de chances de sucesso.
Uma péssima porcentagem, não concorda comigo agente Christensen? – observou o chefe.
Sim senhor. – eu respondi.
E mesmo tendo consciência de sua baixíssima probabilidade de sucesso você entrou. Se você estivesse na sua mesa e essas informações todas chegassem até você, como classificaria o agente que teve tal atitude? – me perguntou o chefe.
Ele quer que eu me autoflagele! Estamos entrando no campo da crueldade!
Informalmente chamaria o agente de imbecil irresponsável senhor. – eu respondi.
Definição perfeita agente Christensen – concordou o chefe comigo pela primeira vez.
O chefe começa a me olhar. Deve estar pensando o que fazer com um agente como eu. Se existir alguma espécie de posto avançado no Tibet ou Djibuti, provavelmente serei transferido para lá. Ainda existe a opção de me promover a sub-auxiliar de ajudante de catador de clipes usados. E para vergonha geral, posso ser expulso do FBI. Ser mandado para o Tibet não é tão ruim quando vemos as opções que restam.
Você sabe que não me resta muitas alternativas do que fazer com você não é mesmo agente Christensen? – me pergunta o chefe com uma expressão indecifrável.
Leite de iaque deve ter um gosto horrível!

Prisão de Almas - Pedaço 1


A Prisão de Almas

Pedaço 1 – A prisão

Hoje, 11:58 hs.
O endereço é esse. O número também está correto. Mas o que vejo nada se parece com uma prisão ou um instituto penal, ou ainda, qualquer coisa do gênero. O prédio à minha frente mais parece a construção de um futuro shopping center que ficou pela metade. O que na verdade, não me surpreenderia em nada se fosse o intuito. Quem, em sã consciência, construiria um shopping nesses lados da cidade?
As paredes estão bastante pichadas... Algumas paredes estão com nomes e figuras gravadas. Sabe quando jovens gravam seus nomes dentro de um coração num tronco de árvore? Desse mesmo jeito. Só que, no mínimo, usaram uma chave de fenda para isso. Escrever no concreto não é tão fácil quanto escrever no tronco de uma árvore. Devo andar bem desatualizado com essas coisas. Não reconheço nem uma palavra e nenhum dos símbolos pichados ou gravados. Quem quer que tenha feito essas gravações deve ter muito tempo ocioso...
O chefe me disse que mesmo com o ofício que me dera, ele mesmo faria uma ligação avisando da minha chegada. Disse que prevenir nunca é demais e que o pessoal que eu ia conhecer não estava muito acostumado a visitas.
Toco a campainha. Na verdade, pela forma e cor, mais parece o botão de emergência de uma usina nuclear adaptada como campainha.
No alto da porta, uma pequenina caixa de som, que confesso que ainda não havia notado, chama, perguntando quem é.
- Agente Christensen. Aidan Christensen. Tenho uma carta... Um ofício me autorizando a interrogar um preso.
A voz me pede que espere por um minuto.
Estou no 73 quando ouço um barulho de tranca se abrindo. Um segundo barulho. Um terceiro, um quarto e um quinto. Todos os barulhos são bem forçados. Como se as trancas (se é que são mesmo trancas) não fossem abertas com freqüência. Um sexto barulho. Mesmo sendo extremamente abafado, escuto o som de um grito pela pequenina caixa de som. Um palavrão. A porta se abre pro lado de fora. As portas onde realmente deseja-se manter o lugar seguro, sempre abrem pro lado de fora. Não é qualquer chute ou marretada que a abrirá. Se for de aço como essa então, será necessário um carro-forte bem acelerado para abri-la. E lógico, um sujeito totalmente desprovido de sanidade para estar dirigindo o carro-forte e chocar-se com a porta.
Um sujeito vestindo-se todo de preto, com exceção da camisa branca, chupando a base do dedão da mão direita me pede a carta. A imaculada camisa branca tem uma bela mancha vermelha de sangue. O que quer que tenha feito o sexto barulho cortou a mão do sujeito. O sujeito intercala a leitura da carta com olhadelas na mão para ver se parou de sangrar. Finalmente entre uma chupada e outra ele me manda entrar.
Quando entro o sujeito fecha a porta. Esqueça o que eu disse sobre um carro-forte e um piloto louco para derrubar essa porta. É melhor chamar logo o Eisenhower ou George Washington. A porta da frente é apenas uma fachada. Uma fachada de quase cinco centímetros de espessura. A verdadeira porta abre para dentro. Uns dez centímetros com certeza. Seis trancas de funcionamento mecânico-manual. Trancas mais largas que cabos de vassoura. Aço, sem a menor sombra de dúvida. A porta do prédio sede do Bureau parece até a entrada de um parque de diversões se comparada com isso aqui. Que raio de lugar é este? Está certo que se for para manter presos supostamente mortos escondidos de todos é preciso uma segurança e uma fachada de primeira... Mas isso aqui... Poxa!
O sujeito me pede para segui-lo.Diz-me que já estavam esperando pela minha chegada e que ficaram surpresos. Que há muito tempo não aparecia ninguém aqui para fazer um interrogatório. Mesmo com a boca ocupada pela mão o sujeito me pede para não tocar em nada. O lugar está longe de ter a melhor iluminação do mundo. Não faltam locais para colocarem lâmpadas. O que falta são lâmpadas funcionando. Estranhamente o local que parece não ser muito bem cuidado devido às inúmeras lâmpadas queimadas, não tem uma única teia de aranha. Tudo bem limpinho.
Ao final do caminho nos deparamos com três portas. Uma de cada lado e outra ao centro. Entramos pela porta da esquerda. O local é uma espécie de copa cozinha. Bem limpinha e arrumada. Armários brancos, pia de mármore, uma mesa com oito lugares coberta com uma pequena toalha e um arranjo de flores no meio. Uma geladeira, um fogão e um micro-ondas completam. Poderia ser a cozinha de qualquer casa comum.
O sujeito puxa algumas folhas de guardanapo de papel de um rolo preso à parede, segura junto à mão e me pergunta se gosto de café com leite.
- Puxe uma cadeira... Vou preparar um café para nós – ele me diz – De que jeito você gosta?
- Vocês têm creme? – eu pergunto.
- Claro. E é uma excelente pedida. Dois com creme então.
O cheiro do café enche a cozinha. Poucas coisas nesse mundo cheiram tão gostoso como um bom café que acabou de ser feito. Os biscoitos da Sra. Freeman. O bolo de cenoura com chocolate de minha mãe.
O agente me entregou a caneca. Dava para ver que a caneca não era nova, mas de qualquer forma estava muito bem conservada. Era toda branca, com o desenho de uma mão. Como se uma mão, coberta de tinta preta, tivesse segurado a caneca. Diferente. Muito bonita.
- Eu me chamo agente Norton. Calleb Norton. Você sabe onde está agente Christensen? – me disse o agente.
- Muito prazer em conhecê-lo agente Norton. Bem, não há uma grande opção de respostas para sua pergunta. Se quem estou procurando para interrogar está aqui, isso aqui só pode ser uma prisão.
- Correto Christensen. E que tipo de prisão acredita que seja? – ele me pergunta.
Tomo mais um gole do café, que está muito bom por sinal, antes de responder.
- Vim aqui para interrogar Stewart McDormand. Preso em 23 de julho de 1972. Condenado à cadeira elétrica, foi executado... Ou ao menos acredito ter sido... Em 14 de setembro de 1973. Se ele realmente está aqui, então isso deve ser uma espécie de prisão para criminosos supostamente executados e, por algum motivo que desconheço, mantidos vivos e presos.
- Sabe porque McDormand foi condenado à cadeira elétrica agente Christensen?
- Porque assassinou de forma fria, meticulosa e cruel 5 pessoas.
- 7 pessoas – me corrigiu o agente Norton.
- Tem certeza? – eu perguntei – Costumo ser bom com números.
Sou formado em matemática em Yale. Sempre fui bom com números. De acordo com meu pai, o melhor que ele já vira em toda sua vida. Meu pai leciona em Yale e nunca foi chegado a exageros. Com o tempo, me acostumei com os elogios quando o assunto eram números.
- Sim, tenho certeza. Mas não se culpe por isso. O relatório que leu com certeza está errado.
Até que eu reveja aquele relatório, vou me culpar sim! Eu me conheço. A última vez que errei uma conta me flagelei por semanas. Eu tinha 7 anos.
- Pois bem – continuou o agente Norton – devo agora dizer que suas suposições quanto a essa prisão estão completamente erradas.
- Mas se estou errado, o que estou fazendo aqui? De que vale esta autorização para interrogar McDormand? – eu perguntei.
- Ela é totalmente válida agente Christensen. E sem ela, posso te garantir, teria passado a vida toda no Bureau sem saber da gente.
- Então... – eu comecei a falar.
- Vou te contar uma pequenina história agente Christensen. – me disse Norton.



“Em 1912 um jovem chamado George Brown foi a julgamento pelo assassinato de duas pessoas. O jovem se declarava inocente. Mas todas as pistas levavam a ele. Não me pergunte como, mas quem o defendia conseguiu uma testemunha que poderia inocentar o rapaz. Uma senhora romena chamada Adela Omer. A senhora Omer, diante do juiz, afirmou realmente que o jovem George não cometera crime algum. Que quem os cometera fora a alma de Steve Lancaster, um assassino que fora preso e executado dois anos antes. Não preciso nem dizer que o tribunal se tornou, conforme os relatos da época, um misto de risadas e palavras de indignação. Mas a senhora Omer não se abalou em instante algum. Apenas disse que se fosse permitido que se aproximasse do acusado, que ela provaria o que estava dizendo. O juiz, que era uma das poucas pessoas que absteve de expressar qualquer emoção, fez um gesto consentindo. A mulher romena então chegou perto de George Brown, colocou a mão em sua testa, disse algumas palavras que ninguém entendeu e o jovem Brown caiu num sono profundo. Omer pediu que um guarda batesse no réu o mais forte que conseguisse. Com o consentimento do juiz, o guarda o fez. George Brown não deu nem sinal de que sentira o golpe, então nem é preciso dizer que não acordou. Adela Omer então chamou por Lancaster... Ao menos foi o que pareceu à todos. Pois não se entendia muito bem o que ela estava falando. Mas todos que estavam por perto podiam distinguir muito bem quando ela dizia o nome de Steve Lancaster. – Sei que está aí! Olhe pra mim quando eu mando! – disse, aos berros, a senhora Omer ao réu. George Brown então levantou sua cabeça. É incrível como o relato do único jornalista presente no local e do escrivão foram parecidos quando George Brown levantou sua cabeça. Seus olhos. Na verdade, o olhar. Definitivamente não era George Brown que olhava para todos naquele momento. O juiz confessou posteriormente que um arrepio subiu-lhe a espinha naquele instante. Ele reconhecera o olhar no mesmo instante. Era o mesmo olhar que vira dois anos atrás quando condenara Steve Lancaster à pena de morte. Olhos frios. Olhos assassinos. O réu tentou, naquele instante, saltar da cadeira em que estava. Felizmente para o juiz, ainda usavam correntes presas a bolas de ferro naquela época. – Era você! Era seu corpo! Eu queria seu corpo! Maldito seja! Era seu corpo que eu queria usar... – gritou e babou o réu antes que um golpe forte acertasse sua cabeça e o fizesse perder os sentidos. A senhora Anela Omer apenas olhou para juiz. Ele suava. O jornalista descreveu em seu artigo que o juiz parecia ter desaprendido como se respirava. O juiz então mandou que apenas a quem interessasse aquele julgamento permanecesse na sala e que os demais fossem retirados. Sobraram então o próprio juiz, o escrivão, três guardas, o réu, o promotor, a senhora Omer e a mãe de réu.”
- Está prestando atenção a tudo agente Christensen? – me perguntou Norton.
- Sim – eu respondi, querendo saber aonde aquela história chegaria e o que ela tem haver com o interrogatório que vim fazer – Continue!
“O juiz, ainda bastante abalado e surpreso virou-se para a senhora Omer e disse que ela conseguira provar o que havia dito... Mas o que fariam então? A senhora Omer disse, com seu forte sotaque romeno, que a situação não era das mais complicadas. Ela afirmara que poderia livrar o jovem George Brown da alma de Steve Lancaster. Os guardas se olharam. O juiz olhou no fundo dos olhos da senhora Omer e perguntou como. A imigrante disse que precisaria de um jarro de vidro bem grosso com tampa, um carretel de cordão de boa qualidade e um pincel fino com tinta preta. Depois que tudo fora arranjado a senhora Omer não perdeu tempo. Com o pincel escreveu e desenhou várias coisas pelo jarro, inclusive a tampa. Colocou o jarro com a tampa aberta de frente ao réu e começou o que pareceu uma espécie de reza ou prece. Seja como for, o escrivão não reconheceu a língua. Ao término, rapidamente a senhora Omer tampou o jarro e usou o cordão para a tampa junto ao jarro, dando várias voltas em torno do mesmo.”



- Está tentando me dizer que essa senhora romena aprisionou a alma do tal Lancaster dentro do jarro? – eu perguntei.
- Exato! – respondeu Norton.
- Mas se era uma alma, porque ela simplesmente não saiu de dentro do jarro?
- Os desenhos e as escritas feitas no jarro eram um feitiço que impedia a alma de sair – novamente respondeu Norton, tentando analisar como aquela resposta seria assimilada por mim.
- Feitiço? – perguntei com total e completa incredulidade.
- Sim. – respondeu o agente Norton como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
- Me desculpe se pareço cético quanto a isso agente Norton, mas sou um homem que cresceu dentro de um lar onde a ciência e os números eram quase uma religião.
- Está desculpado Christensen – respondeu Norton – Eu mesmo tive uma certa dificuldade de assimilar tudo isso quando fui designado pra cá.
- Então, onde exatamente eu estou agente Norton? – eu perguntei enquanto olhava para minha caneca que já estava vazia.
- Mais um? – me perguntou Norton.
- Não, obrigado. – eu respondi.
- Agente Christensen, você está num dos segredos mais bem guardados do Bureau. Você está na prisão de almas. – me explicava Norton enquanto colocava nossas canecas dentro da pia – O local onde estão presas as almas de pessoas que mesmo após suas mortes, utilizando-se do corpo de outras pessoas, continuaram cometendo seus crimes.
- Como o tal Lancaster da história que me contou?
- Exatamente!
- Então agente Christensen, se o senhor está aqui com esse passe livre para tentar interrogar McDormand, é porque o caso em que está deve ser realmente importante.
- Exato! – eu respondi.
- E posso saber do que se trata?- perguntou Norton.
- Peço perdão... É confidencial.
- Eu já imaginava. – disse Norton.
- Mas posso te fazer uma confissão bastante particular agente Norton... Ainda que racionalmente eu saiba que o Bureau jamais manteria um lugar assim para algo que não existe... Ainda que racionalmente o diretor, sabendo o caso em que eu estou envolvido, jamais me faria vir aqui se não fosse algo que realmente exista... Eu te digo, está sendo absurdamente difícil para eu acreditar nisso tudo.
- Eu compreendo – respondeu Norton – Mas me siga. Isso não é nada que uma boa olhada em nossas celas não possa persuadi-lo.
Eu sigo Norton pela porta do meio do corredor. Fico imaginando o que teria na porta da direita.
- Já ia me esquecendo. Se precisar ir ao banheiro, é só falar. O banheiro é naquela porta à direita do corredor.
Ahhhhhhhh.
Entramos numa espécie de saleta. Nela há uma outra porta, uma mesa com cadeira, dois sofás de dois lugares, dois velhos armários de aço e um vaso com um bonsai, implorando por água, em cima de um dos armários.
Norton vai até um o armário sem bonsai e em alguns segundos retira uma pasta de dentro dele. Ele coloca a pasta em cima da mesa e me chama para olhar. Na mesa há também um caderno de passatempos aberto na página de um sudoku. Preciso me esforçar para não olhar para os quadradinhos do jogo.
- Veja Christensen... Sete mortes... Como eu havia dito.
A expressão “sete mortes” chama a minha atenção. Os assassinatos de McDormand. Dois assassinatos a mais do que constava no relatório a que eu tive acesso.
Folheio com calma o conteúdo da pasta. As duas mortes que não constavam no relatório do Bureau. Não havia como suspeitar de outra pessoa. O “modus operandi” era idêntico. Ou aquelas duas mortes seriam obra de um fã tão obcecado por detalhes, ou seriam do próprio McDormand. Isso é apenas mais uma peça do quebra-cabeça que se forma na minha cabeça. Ainda faltam muitas para que o quadro esteja completo e eu aceite como fato essa prisão de almas. Fecho a pasta e a empurro em direção de Norton.
- Agora vamos a algumas regrinhas bastante simples, mas de extrema importância, que você precisa saber antes de entrarmos por aquela porta. – disse-me Norton enquanto guardava cuidadosamente a pasta no mesmo lugar de onde a tinha tirado.
Eu não resisto e começo a olhar o jogo.
- Primeira regra: Não ultrapasse a linha branca em hipótese alguma!
Nove... Sete... Seis... Quatro... Cinco... Três...
- Segunda regra: Mesmo de trás da linha branca não toque nas celas em hipótese alguma!
Dois... Um... Oito... Sete... Seis... Nove... Cinco...
- Terceira Regra: Não importando se você acreditará ou não no que ver, não grite... Isso os costuma deixar mais agitados que o normal.
Cinco... Três... Um... Oito... Sete... Dois...
- Quarta e última regra: Não faça comentários sobre a aparência deles... Isso também não ajuda em nada.
Nove... Sete... Seis... Dois... Um... Bingo!
- Estamos entendidos agente Christensen?
- Sim agente Norton. – eu respondo – sem ter ouvido tudo com a atenção que merecia.
Então, entramos pela porta.
Está tudo escuro. Norton levanta as chaves de um disjuntor. Grandes luminárias como as de fábrica vão se acendendo uma a uma como se a energia fosse chegando de forma lenta e mecânica. As luminárias revelam um grande corredor com o que poderia ser um grande viveiro se houvessem grades nas colunas a minha frente.
- Desculpe a escuridão – foi me dizendo Norton – mas devido a nossa categoria de presos, elas não costumam serem necessárias. Só quando chega “alguém novo” ou aparece alguém querendo interrogá-los essas lâmpadas são acesas.
Eu olho para Norton. Ele faz sinal com a cabeça para que eu siga em frente. Há uma linha branca pintada no chão. Lembra a linha de segurança de uma estação de metrô, mas não tão gasta. Lembro-me de ter ouvido algo sobre linha branca nas tais regras. Mas estava concentrado demais no sodu para lembrar de detalhes.
- Estas são as nossas celas... – foi me dizendo Norton enquanto caminhávamos.
Celas? Como eu disse, parece mais um grande viveiro sem grades. Quatro colunas dispostas, no que me parece, em quadrados de 1,5 m². As colunas estão todas repletas de escritos e símbolos... Escritas e símbolos parecidos com... Com as que eu vi do lado de fora do prédio! As quatro colunas são interligadas por quatro hastes. Todas também repletas com as mesmas coisas que as colunas. Entre cada uma das celas há um espaço que não deve ser superior a 30 centímetros. No centro de cada quadrado há apenas um simples banquinho de madeira.
- Fique aqui – me disse Norton enquanto caminha adiante no corredor – vou pegar uma coisa para ajudar. E não se esqueça de não ultrapassar a linha branca!
Fico olhando para cela que paramos adiante. Não há nada demais. Só as quatro colunas com as quatros hastes interligando-as e o banquinho ao centro.
Quando começo a me sentir compelido a atravessar a faixa (meu lado racional me dizia que nada tinha ali que pudesse oferecer perigo!), Norton voltou com uma handcam com tripé na mão.
Norton colocou a handcam o mais próximo da linha branca possível, virou o pequeno visor para meu lado e ligou-a.
A handcam, das primeiras a ter um pequeno visor para quem gravava, começa com algo pouco mais do que chuviscos. Aos poucos vai tomando forma. No início uma imagem disforme, mas que aos poucos vai formando seus contornos. A imagem mostra a figura de um homem. Eu olho para a cela e para o visor. O coração fica acelerado. Preciso forçar a piscada. Por instinto não estou conseguindo fazer isso. Olho para a câmera para me certificar que foi o botão REC que Norton apertou e descartar a possibilidade de algo já gravado. Está tudo certo. Infelizmente... Ou felizmente! Novamente olho para cela e depois para a câmera. Nada na cela. E na câmera a figura de um homem. Ele está sentado no banquinho de madeira no centro da cela... De cabeça baixa. O coração acelera um pouco mais. Esfrego cada um dos olhos com as palmas das mãos.
A figura no visor da câmera levanta a cabeça... McDormand!
O coração acelera ainda mais. O ar desaparece como que por mágica. Quando me posto reto para conseguir respirar melhor, sinto a cabeça pesando além do normal... Me puxando para trás como se eu tivesse sido laçado. Cambaleio para trás, encontrando a parede sólida que me ajuda a manter-me de pé.
- Está se sentindo bem agente Christensen? – pergunta Norton preocupado comigo, mas sem estar surpreso com minha reação – Agüente um pouco... Vou pegar uma cadeira e um copo d’água para você.
Me escoro na parede. A respiração teima a voltar ao normal. A cabeça ainda pesa. Viro-me para parede. Testa na parede e olhos fechados. Preciso raciocinar sobre isso. Procuro na cabeça uma equação matemática que faça tudo isso ter alguma lógica. Tempo perdido, é lógico! Quero me virar e olhar para o visor. O pouco ar que circula pelo cérebro me faz ser racional o suficiente para não me virar... Esperar Norton com a água e a cadeira. Forço a lembrança do sodu que fizera há pouco. A vontade de me virar e olhar para aquele visor é imensa e a idéia de estar sendo observado não está ajudando muito.
- Aqui está a sua água... Sente-se aqui – me diz Norton com uma cadeira e um copo de água na mão.
- Obrigado – eu respondo – pegando o copo de água, mas sem tirar a testa da parede.
- Não se recrimine – começa a falar Norton – Sua reação é perfeitamente normal. Pelo que me lembro, a minha foi ainda pior.
Eu começo a beber minha água. Cada gole desce com uma certa dificuldade. Sabe quando você é criança e tem que tentar engolir um comprimido pela primeira vez?
- Vamos agente Christensen... Sente-se aqui – diz Norton – Respire e recomponha-se. Se quiser mesmo interrogar McDormand vai precisar mostrar alguma fibra ou não vai conseguir arrancar nada dele.
Interrogar! A palavra traz um pouco de mim de volta. Eu me viro e sento na cadeira. Encaro o visor. McDormand está me encarando. Se não for nenhuma distorção da imagem da câmera, então é certo que há um sorriso cínico no canto da boca dele.
Acho que Norton também falou alguma coisa sobre aparência. A aparência de McDormand parece a de um corpo putrefado. Olhando para ele, é quase possível sentir o cheiro.
Mas o pior não é isso. O pior é meu lado racional tentando equacionar tudo isso. Diante de mim está a alma de um dos assassinos seriais mais cruéis que já existiu. A alma! Você não recebe treinamento no Bureau para esse tipo de situação. Você é treinado para interrogar gente viva. Gente viva pode ser ameaçada, torturada, coagida, chantageada... Você pode fazer qualquer coisa para obrigá-la a falar. Mas estando morta, o que ela tem a perder?
No bolso do meu paletó eu pego um bloco de anotações e uma caneta. Não confio muito em coisas como Blackberry e Smartphone... A probabilidade de darem problemas são grandes demais para alguém, paranóico por números como eu, usar qualquer um desses dois.
- Você é Stewart McDormand? – eu pergunto. Sei que a pergunta, diante da situação, soa bastante imbecil. Mas não tinha outra idéia de como começar isso aqui.
- Ah! Me desculpe! – me disse Norton – O microfone. Antes, mais um alerta. As celas podem prendê-los, mas não pode impedir que... Que se expressem! O que é óbvio, senão, como interrogaria um deles, certo?
Certo. – eu respondo, sem entender muito bem o que ele quis dizer com isso.
Norton liga o microfone.


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